quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

EU ETIQUETA


Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 9 de janeiro de 2011

Confiança e Esperança

“Até os jovens se cansam, e os moços tropeçam e caem; mas os que confiam no SENHOR recebem sempre novas forças. Voam nas alturas como águias, correm e não perdem as forças, andam e não se cansam.” (Is. 40:30,31)

A vida cotidiana urbana pós-moderna exige de nós uma velocidade absurda, muitas refeições são atropeladas,excedemos o limite de velocidade, e tudo isso por que? Porque temos sempre a necessidade de urgência em tudo o que fazemos.

Toda essa correria acaba gerando a falta de pausas e por conseguinte acabamos nos relacionando com Deus de forma acelerada, ou mesmo como se Deus fosse um Gênio da Lâmpada, ou como um atendente de fast-food.

Esquecemos que no relacionamento com Deus, a relação não é de imediatismo, mas sim uma relação mediata, onde Deus não se importa apenas com o resultado final dos nossos pedidos, mas sim com o meio, com a relação de confiança que passamos a ter com Ele.

Deus me ensina bastante por meio de minha filha pequena, por exemplo, quando ela está com fome. Quando isso ocorre ela, às vezes, chora porque ainda não fala, mas não fica preocupada ou entra em desespero sem saber se haverá o que comer, simplesmente ela confia que eu ou minha esposa em instantes estaremos lhe dando o que comer, há uma relação de dependência e confiança.

Por que, então, perdemos isso quando “crescemos”? Nem nos damos conta de que quando vivemos para nós mesmos, nos cansamos, corremos atrás do vento e acabamos investindo no que não é eterno. Como dizia C. S. Lewis "O que não é eterno,é eternamente inútil".

É certo que descansar e confiar em Deus, pelo menos para mim, não é tarefa fácil, pois precisamos abrir mão do controle das nossas vidas e confiar nEle mais até do que minha filha confia em mim.

O quanto Deus se agrada quando depositamos Nele, a nossa confiança? Creio que Ele abre um grande sorriso quando agimos assim, e esta graça é diária, Glória a Deus por isso. Quando conseguimos fazer isso, nossa força e esperança se renovam!

Quando não conseguimos, Ele nos proporciona novas chances, pois nos ama incondicionalmente e sabe que jamais seremos perfeitos. ELE só quer o nosso AMOR, que confiemos nele para TUDO.

Deus é bom em todo o tempo, nos momentos de vitórias e derrotas, nas alegrias e tristezas, na abundância e na fartura (quando farta tudo), Ele é nosso socorro, nosso Deus, amigo fiel, portanto, voemos como águia, corramos sem nos cansar confiando e esperando a cada dia nAquele que tem o controle de tudo e de todos nas mãos, o Soberano Deus.

Homero Neto – 09/01/11