sábado, 30 de outubro de 2010

"O Mau Uso Político da Religiosidade Popular" (Leonardo Boff)

A religiosidade popular está hoje em alta pois foi um dos eixos fundamentais da campanha eleitoral, especialmente em sua vertente fundamenalista. Foi induzida pela oposição e por uma ala conservadora de bispos de São Paulo, à revelia da CNBB, acolitada depois por pastores evangélicos. Sem projeto político alternativo, Serra descobriu que podia chegar ao povo, apelando para temas emocionais que afetam à sensível alma popular, como o aborto e a união civil de homosexuais, temas que exigem ampla discussão na sociedade, fora da corrida eleitoral. Política feita nesta base é sempre ruim porque faz esquecer o principal: o Brasil e seu povo, além de suscitar ódios e difamações que vão contra a natureza da própria religião e que não pertence à tradição brasileira.

Historicamente a religiosidade popular sofreu todo tipo de interpretação: como forma decadente do cristianismo oficial; os filhos da primeira ilustração (Voltaire e outros) a viam como reminiscência anacrônica de uma visão mágica do mundo; os filhos da segunda ilustração (Marx e companhia) a consideravam como falsa consciência, ópio endormecedor e grito ineficaz do oprimido; neodarwinistas como Dawkins a lêem como um mal para a humanidade a ser extirpado.

Estas leituras são canhestras pois não fazem jutiça ao fenômeno religioso em si mesmo. O correto é tomar a religiosidade por aquilo que ela é: como vivência concreta da religião na sua expressão popular. Toda religião significa a roupagem sócio-cultural de uma fé, de um encontro com Deus. No interior da religião se articulam os grandes temas que movem as buscas humanas: que sentido tem a vida, a dor, a morte e o que podemos esperar depois desta cansada existência. Fala do destino das pessoas que depende dos comportamentos vividos neste mundo. Seu objetivo é evocar, alimentar e animar a chama sagrada do espírito que arde dentro das pessoas através do amor, da compaixão, do perdão e da escuta do grito do oprimido. E não deixa de fora a questão do sentido terminal do universo. Portanto, não é pouca coisa que está em jogo com a religião e a religiosidade. Ela existe em razão destas dimensões. Um uso que não respeite esta sua natureza, significa manipulação desrespeitosa e secularista, como ocorreu nas atuais eleições.

Não obstante tudo isso, importa tomar em conta as instituções religiosas que possuem poder e um peso social que desborda do campo religioso. Este peso pode ser instrumentalizado em diferentes direções: para evitar a discussão de temas fortes como a injustiça social e a necessidade de políticas públicas orientadas para quem mais precisa e outros temas relevantes.

É nesse campo que se verifica a disputa pela força do capital religioso. E ela ocorreu de forma feroz nestas eleições. Curiosamente o candidato da oposição, se transformou num pastor ao fazer publicar num jornal que eu vi:”Jesus é verdade e justiça”, com a assinatura de próprio punho, como se não nos bastassem os Evangelistas para nos garantirem esta verdade. O sentido é insinuar que Jesus está do lado do candidato, enquanto o outro é satanizado e feito vítima de ódio e rejeição. Eis uma forma sutil de manipulação religiosa.

Um católico fervoroso me escreveu que queria “me retalhar em mil pedaços, queimá-los, jogá-los no fundo do poço e enviar a minha alma para os quintos dos infernos”. Tudo isso em nome daquele que mandou que amássemos até os inimigos. O povo brasileiro não pensa assim porque é tolerante e respeitador das diferenças porque crê que no caminho para Deus podemos sempre somar e nos dar as mãos.

Só não desnatura a religiosidade aquela prática que potencia a capacidade de amor, que nos ajuda na auto-contenção da dimensão de sombras, nos desperta para os melhores caminhos que realizam a justiça para todos, garante os direitos dos pobres e nos torna não apenas mais religiosos, mas fundamentalmente mais humanos. A quem ajua a difamação e a mentira? Deus as abomina.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Adoração em tempos de angústia

Por que ser grato a Deus? Será que há motivos para isso? Mesmo quando as circunstâncias não estão nada fáceis? Será que é possível ser grato quando não se tem um emprego e há a necessidade de sustentar uma família? Será que é possível ser grato a Deus quando a enfermidade invade algum ente querido sem pedir licença?



A Palavra de Deus diz: “Estejam sempre alegres, orem sempre e sejam agradecidos a Deus em todas as ocasiões. Isso é o que Deus quer de vocês por estarem unidos com Cristo Jesus.” (I Ts.5:16-18). Deus não é um sádico que se compraz no sofrimento da humanidade, então por que Ele quer que eu seja sempre grato? Na verdade não acredito que Deus espere de qualquer humano que o agradeça pela desgraça, pela doença... mas que nos momentos de dificuldades encontremos motivos para o agradecer, justamente porque estamos unidos com Cristo. Não é fácil! Lembro-me da composição de Paulo Cesar: “Dá-me mais graça Senhor, dá-me mais graças, passa os teus dedos nos meus olhos vem me consolar...” mas que louco: é por graça dEle que conseguimos ser gratos, encontrarmos motivos de louvor em tempos de angústia.


Não sou adepto da teologia barata e de um evangelho sem cruz, não encontro base bíblica para dizer que os sofrimentos são do Diabo. O que me consola é conhecer o Deus em quem eu tenho crido, ouvir repentinamente de Jesus: “No mundo vocês vão sofrer; mas tenham coragem. Eu venci o mundo.” (Jo.16:33).



No tempo de angústia pedir para Deus me restituir daquilo que me foi tirado seria loucura! O que me foi tirado foi o castigo eterno, e ser restituído disso: jamais! Em alguns momentos vou orar como Davi: “Restitui-me a alegria da tua salvação e conserva em mim o desejo de ser obediente” (Sl. 51), essa é única restituição que quero (além do imposto de renda, lógico!).



A despeito de toda dor, e de toda circunstância adversa que vivo hoje, sou grato a Deus! Grato pelo dom da vida, pelos meus 29 anos, por viver e não ter e não ter a vergonha de ser feliz (que louco, não?!) Posso cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será! Mas isso não impede que eu repita ela é bonita, é bonita e é bonita...



Sou grato pela minha família, pai e mãe que são meus maiores discipuladores, referenciais e mentores, aqueles que me ensinaram a amar a Deus, e utilizaram o melhor método para isso: a própria vida! Irmãos, com quem dividi anos entre alegrias e tristezas, brigas, enredos pra mãe, mas também companheirismo! Sou grato a Deus pela minha esposa, mulher companheira de todas as horas, que compartilha tudo comigo: alegrias, vitórias, derrotas, dificuldades! É alguém especial e mesmo quando não me entende está sempre ao meu lado. Sou grato a Deus pela Melissa, presente de Deus na minha vida! Filha pela qual Deus me fez entender seu coração paterno! Deus é bom! Sou grato a Deus por Jesus, que me amou em primeiro lugar, morreu se entregou, e me religou ao Pai. Sou grato a Deus, porque por meio deste sacrifício minha família foi multiplicada numa progressão exponencial, ganhei novos irmãos! Sou grato a Deus pelos amigos que são feitos pra se guardar debaixo de sete chaves! Pessoas com quem partilhamos vida, e nos abençoam deveras (se fosse citar nomes poderia ser injusto)! Sou grato a Deus pela família da minha esposa, que desde o dia 10/02/2006 passou a ser minha família também. Neste dia fui oficialmente acolhido e eles têm sido suporte para mim!



Enfim, Deus seja louvado! Deus é infinitamente maior do que qualquer circunstância! Ele é o alfa e o ômega! Soberano! Tapeceiro da minha vida (menção a canção de Stênio Marcius)! Aquele que conhece tudo, sabe o fim desde o começo! A Ti Jesus, seja a honra, a glória, o poder, a sabedoria, a vitória, te adoro autor e consumador da minha vida!


Que as minhas palavras e os meus pensamentos sejam aceitáveis a ti, 
ó SENHOR Deus, minha rocha e meu defensor!” (Sl. 19:14)

Homero Ribeiro Pessoa Neto – 30/08/2010